Centésima edição das 500 milhas

E então, naquele dia 30 de maio de 2011 (era uma terça-feira), a história havia começado a ser escrita. O Indianapolis Motor Speedway já era famoso por suas corridas de automóveis, mas eles queriam fazer um evento maior, com premiação em dinheiro maior, algo que ficasse marcado para sempre na memória dos apaixonados por velocidade. Querendo ou não, eles acabaram criando a maior corrida automobilística do mundo. Foram 200 voltas e 500 milhas percorridas, Ray Harroun saiu da aposentadoria e se tornou o primeiro campeão. Desde então mais de 100 anos se passaram, e finalmente agora a tão famosa 500 milhas de Indianapolis chegou à sua centésima e histórica edição.

Uma corrida famosa e histórica naturalmente atrai mais a atenção do público, sejam fãs incondicionais, sejam apreciadores de ocasião. Nenhum evento fechado no planeta consegue juntar tantas pessoas em apenas um dia. Nas arquibancadas são 250 mil pessoas. No interior do circuito, espalhados pela grama, acampando e fazendo a festa, estão outros 100 mil espectadores. Eles querem ver a história sendo escrita mais uma vez, eles querem emoção até a última volta, eles querem saber quem o circuito irá escolher para vencer. Eles acabam vendo um novato sorrir com a alegria que todos queriam sentir.

Duzentas voltas e volta que não acaba mais. As estratégias são pensadas e repensadas a cada instante, afinal não tem como prever o número de bandeiras amarelas ou o que vai acontecer com a economia de combustível. Se fossem menos voltas não teria a mesma graça, mas as primeiras cem voltas não resultam em nada. Hinchcliffe saiu na frente e apontá-lo como favorito era inevitável. Até mesmo quando perdeu posições vimos sua rápida recuperação. Com ele Ryan Hunter-Reay, e não dava para vê-lo fora da briga também. Mas nas últimas 50 voltas as coisas mudam rápido demais, acidentes mudam destinos, sejam eles dentro ou fora dos boxes. Pilotos que você nem tinha ouvido falar entram na briga e, até os brasileiros estão lá.

Helio Castroneves sonhava igualar o recorde de vitórias. Tony Kanaan queria sentir o gostinho do leite mais uma vez. Carlos Muñoz e Josef Newgarden na frente? Como assim? Cadê aquela última bandeira amarela para uma última parada no boxes? Menos mal que ela não venha, pois junto poderia vir alguma suspeita de armação ou jogo de equipe. Quem vai ficando sem combustível vai parando e dizendo adeus, quem arrisca e fica na pista vai vendo o sonho se tornar realidade. Um desses que fica na pista é Alexander Rossi, da equipe Andretti, apostando todas as suas fichas e arriscando de forma ousada na sua primeira participação em Indianapolis.

Em 1911, na primeira edição, todos os pilotos naturalmente eram estreantes. De lá para cá, foram mais oito pilotos vencendo em sua primeira participação. Os dois últimos a fazerem isso, Juan Pablo Montoya no ano 2000 e Hélio Castroneves em 2001, estavam presentes nesta centésima edição. Montoya, campeão no ano passado, bateu e disse adeus. Helinho ficou em décimo primeiro. Enquanto isso, lá na frente e praticamente sozinho, desfilava o décimo estreante a triunfar na maior prova de automobilismo do mundo. Alexander Rossi até fim se arrasta, logo depois o combustível acaba. A edição centenária das 500 milhas de Indianapolis não poderia ter um final mais inusitado, e é isso que justifica seu legado.

Engolidos pelo tubarão de Messina

O troféu do Giro de Itália é um dos mais lindos do mundo. Mas ele poderia ser ainda mais bonito se não fossem tão flexíveis aquelas hastes curvadas que moldam toda a sua beleza e diferenciação dos demais. Essa possível fragilidade só pôde ser percebida por quem não está perto dele em Turim devido à forma como o campeão da nonagésima nona edição da prova segurou o cobiçado prêmio. A força excessiva que Vincenzo Nibali usava pode até ser muito bem compreendida, afinal o tubarão de Messina estava mais para um peixe fora d´água na última semana da competição do que para um devorador dos mares, porém ainda faminto para conseguir engolir os seus maiores rivais na disputa.

Antes da décima quinta etapa, Nibali tinha uma desvantagem de apenas 41 segundos na classificação geral do Giro de Itália de 2016. Depois disso a diferença pulou para mais de dois minutos e, logo iria aumentar cada vez mais. Depois de erguer a taça, o italiano revelou que não estava se sentindo bem naquele dia, mas que não poderia ter dito isso porque não poderia alertar seus adversários. Os jornais não quiseram saber e o que não faltou foram as criticas. O ciclista talvez pudesse se empenhar mais para quem sabe 'calar a boca' de quem fala mal dele, mas ele sabe que sua carreira já era consagrada com pelo menos um título em cada uma das três principais voltas ciclísticas do mundo.

Ele já venceu a Volta da Espanha, o Tour de France e já havia sido campeão do Giro de Itália em 2013. É claro que vencer novamente seria incrível, mas ele estava mal e ninguém sabia. Então Vincenzo Nibali, já com o belo e frágil troféu nas mãos, fez outra revelação. Sem chances de título, ele passou a correr mais solto e despreocupado, tudo isso depois de ter pensado em abandonar a competição. Se tivesse abandonado um outro ciclista teria ganhado. E não teria sido aquele cujo tempo tirava a esperança do italiano, pois este era um holandês que viu um paredão de neve acabar com as suas esperanças de glórias.

A nonagésima nona edição do Giro de Itália poderia ter sido a centésima. Foi memorável e emocionante. Disputas de contra relógio com vencedores marcando o mesmo tempo. Mudanças constantes no dono da maglia rosa. Indefinição até o penúltimo dia de competição. O holandês Steven Kruijswijk tinha três minutos de vantagem antes da etapa 19, mas na descida viu um paredão de neve no seu caminho, saiu voando e viu seu sonho de ser campeão criar asas a sumir no horizonte sem fim. Esteban Chaves é da Colômbia e não do México, mas assumiu a ponta e lembrou Roberto Gomes Bolaños. Mas lá na frente quem havia vencido a etapa era o tubarão de Messina, e agora ele estava pronto para engolir os seus rivais.

O sábado veio com esperanças colombianas e solidez italiana. Faltou perna para El Chavo del ocho, sobrou jogo de equipe para Tanel Kangert e Michele Scarponi. Os escudeiros conduzem e o líder faz o resto, abre vantagem na penúltima subida e controla tudo na técnica descida. Vincenzo Nibali havia perdido as esperanças, mas soube esperar a hora certa para dar o bote certeiro. O tubarão de Messina engoliu Kruijswijk na antepenúltimo dia e devorou Chaves no penúltimo. Em Turim fez o passeio da glória, com o belo e frágil troféu, segurando com força para não soltar mais, pois este agora é seu e ninguém mais poderá tirá-lo.

Maldição do San Siro dá uma trégua

net esportes
Uma frase que poderia resumir a história da final da Champions League de 2016 é: "O Real Madrid foi campeão no estádio San Siro, mas continua sem vencer por lá". A equipe do Real Madrid jamais em toda a história do futebol mundial conseguiu vencer ao menos uma partida no estádio italiano. Seja jogando contra o Milan no tão popular San Siro, ou seja contra a Inter de Milão, que divide as mesmas dependências, mas prefere se referir ao mesmo como Giuseppe Meazza (ex-jogador e ídolo da torcida). Eram dez derrotas e quatro empates, sete jogos contra Milan e outros sete contra a Inter. Agora acrescenta-se mais um empate, contra o Atlético de Madrid, porém recheado com um grito de campeão.

Esse grito de campeão que o Real Madrid solta pela décima primeira vez na Champions League está engasgado na garganta do Atlético de Madrid. Faz dois anos que a equipe rival da capital espanhola esteve novamente lá na decisão, e lá estava também o Real para acabar com suas alegrais e esperanças de se tornarem donos do mundo. É a primeira vez em toda a história do maior campeonato de futebol do planeta que um time chega três vezes na grande final e consegue a façanha de não vencer nenhuma delas. Com um jogo consistente e uma vontade tão grande vista na euforia do técnico Diego Simeone, aliados com a boa e velha "Maldição do San Siro", desta vez parecia que seria diferente.

Na cobrança de falta a bola é lançada na área, já era a segunda vez que isso acontecia. Bale desvia de cabeça e Sergio Ramos, oportunista, abre o placar para a equipe merengue. Plantados no chão, nenhum jogador do Atlético subiu para afastar o perigo. O jogador do Real Madrid estava em posição de impedimento, mas o estrago já estava feito. Se não houvesse erro da arbitragem, e o placar seguisse empatado, o Atlético poderia ter ganhado. Não seria graças à Antoine Griezmann (jogador francês que vai sim brilhar na Eurocopa), pois o pênalti que ele perdeu chutando no travessão foi também um erro do juiz. Mas sim graças ao golaço de Carrasco, que foi um verdadeiro carrasco acabando com a tática de Zinédine Zidane que já tinha a certeza de que venceria por 1 a 0 naquela altura da partida.

Não tem como o Real vencer por 1 a 0 no San Siro. Por lá prevalece a maldição que perpetuará por muito tempo. Ao Atlético então restava fazer o que o Real havia feito com eles dois anos antes. Naquela ocasião eram eles que venciam por 1 a 0 e sofreram o empate, ficaram abalados e levaram mais gols na prorrogação. Quem sabe agora, que perdiam e empataram, pudessem fazer o mesmo. Não foi oque aconteceu, o empate seguiu e a decisão foi para a disputa por pênaltis. Griezmann mostrou a frieza que precisava ter tido para que seu time já estivesse com o título. De forma impressionante todos os jogadores cobravam com calma e maestria, pareciam um monte de Djalminhas. Mas Juanfran finalmente errou.

Havia uma trave no seu caminho. Havia um poste entalado na sua garganta. E a quem resta então a tarefa de ser o herói, mesmo que a importância de todas as outras cobranças terem sido certeiras? Não poderia mesmo ser outro. "Cristiano Ronaldo é largo" diriam torcedores, admiradores e até indiferentes ao português. Provavelmente ainda sentindo a lesão que o deixou fora de algumas partidas, ausências que não o impediram de ter marcado 16 gols nesse edição da Champions League, Ronaldo jogou mal, teve poucas chances reais de resolver e não foi bem nem quando cobrou falta (sua especialidade). Mesmo assim o substituído foi Benzema. E por que será? Talvez porque no final sua estrela tinha que brilhar. Continua a maldição, mas o Real é campeão.

Simplesmente exagerado

preaknes 2016, net esportes
A chuva que caiu forte e passou rápido no Kentucky Derby desta vez veio para ficar no Preakness Stakes. A pista de areia ficou encharcada e pesada. Neste momento talvez já fosse possível prever certa dificuldade para o favorito Nyquist, mas seria um exagero deixar de acreditar na esperança de ver uma conquista da tríplice coroa pelo segundo ano consecutivo. Principalmente depois de ter esperado desde 1978 até finalmente American Pharoah alcançar o feito extraordinário no ano passado. Exceto talvez se essa aposta fosse em um cavalo que é simplesmente exagerado, chamado de Exaggerator e pronto para exagerar na dose.

O Kentucky Derby foi incrível. Único e inesquecível para Nyquist. Seu domínio pleno praticamente de ponta a ponta foi decisivo e o puro sangue inglês mereceu a vitória grandiosa. Mesmo assim não dava para ignorar a performance inacreditável e exagerada de Exaggerator. Conduzido pelo experiente Kent Desormeaux, o cavalo teve uma recuperação fantástica após figurar nas últimas colocações (grande estratégia que muitas vezes dá certo), e arrancou na reta final de maneira fulminante, quase alcançando Nyquist que vinha perdendo força, mas que acabou cruzando a faixa final em primeiro.

O tradicional sinal das cornetas ecoaram e, após um coral da marinha interpretar de maneira sempre emocionante "My Maryland, My Maryland" (um hino em Baltimore), a história do Kentucky Derby quase se repetiu no Preakness Stakes. Lá estava novamente Nyquist disparando na ponta e fazendo Doug O'Neill vibrar feliz mesmo vivendo tantos dramas familiares com seus irmãos morrendo e ficando doentes. Mario Gutierrez estava impecável novamente, mas desta talvez tinha faltado um pouco mais de exagero para que a vitória e sonho da tríplice coroa pudessem ser repetidos e mantidos. Desta vez ele não iria aguentar até o final.

Exaggerator não conseguiu ultrapassar Nyquist na reta final do Kentucky Derby porque demorou muito para partir em busca da vitória e teve dificuldades em ultrapassar os outros cavalos, ficando encaixotado. Agora, no Preakness Stakes, ele se antecipou um pouco e na última curva já partia em busca da liderança. A ultrapassagem foi feita de forma avassaladora, exagerada e, mesmo com Nyquist tentando mudar o traçado para se recuperar, Exaggerator seguiu unânime pela linha de dentro. Por ali ele foi sem ver ninguém à sua frente, vencendo com autonomia do mesmo jeito que gostaria de ter feito duas semanas antes.

Pela primeira vez Exaggerator derrota Nyquist. Pela primeira vez desde 1993 um cavalo vice-campeão do Kentucky Derby vence o Preakness Stakes. Pela primeira vez o treinador de um cavalo, cujo irmão é o jockey, vence uma das principais corridas de cavalo do turfe americano. Pela primeira vez desejamos que o vencedor da corrida anterior pudesse ter sido o mesmo que venceu agora. Ou será que é um exagero dizer que Exaggerator é melhor que Nyquist? A resposta poderá vir no Belmont Stakes, em Nova York, afinal se não teremos a tríplice coroa neste ano, que seja um tira-teima para saber qual é o melhor cavalo deste ano.

Uma vitória sem nenhum exagero

O céu estava escuro e a chuva era uma ameaça real. O que ninguém, no entanto, poderia imaginar, é que ela viria tão repentinamente e de maneira tão torrencial bem na hora que Lady Antebellum interpretava o hino nacional. Alguns abriram seus guarda-chuvas, outros optaram por vestir a capa, mesmo assim era possível ver alguns valentes de terno e gravata enfrentando a água. Foi péssimo, mas foi rápido. As nuvens dissiparam a areia da pista nem ficou molhada. Estava tudo pronto novamente para a disputa do Kentucky Derby, e para alegria e roupas secas de 167 mil pessoas que lotavam Churchill Downs.

Depois que American Pharoah ganhou a tríplice coroa no ano passado, as expectativas para o Kentucky Derby aumentaram naturalmente. A corneta soa e alguns espectadores vão às lágrimas quando em coro todos cantam "My Old Kentucky Home". Em seguida, aos poucos, os cavalos vão se encaminhando para o ponto de largada e um a um entrando em seu local previamente estabelecido. O último deles a entrar, aquele que faz a sineta tocar em praticamente um segundo depois que a sua porta se fecha, é Danzing Candy. Ele é o último a se posicionar, mas se torna o líder da prova em muito pouco tempo. Impossível não lembrar de Big Brown e sua vitória em 2008 saindo da posição número 20.

São vinte cavalos na corrida das rosas brigando pela aclamada vitória. E entre tantos concorrentes naturalmente existe um favorito. Seu nome é Nyquist, em homenagem a um jogador sueco de Hóquei no Gelo. Montado por Mario Gutierrez, ele está logo ali, na terceira e ás vezes até segunda colocação. Com sua inconfundível roupa na cor roxa, ou seria lilás? Gun Runner ameaça, mas quando viram na última curva ele dispara pela reta enquanto Candy desaparece lá atrás. As esperanças do treinador Doug O'Neill assim se renovam. Em 2012 seus cavalo venceu o Kentucky Derby e o Preakness Stakes, mas teve que se aposentar antes da derradeira corrida final da tríplice coroa em Nova York.

Ele não venceu no Belmont Stakes, e provavelmente será muito difícil ou complicado vencer esse ano com Nyquist. O cavalo sem dúvida alguma mostrou sua força se mantendo entre os líderes o tempo todo e ganhando com uma vantagem, mesmo que mínima. Isso aconteceu especialmente porque um outro favorito, Exaggerator, chamou a atenção com seu exagero na reta final. O cavalo montado pelo especialista Kent Desormeaux estava lá atrás como quem não quer nada e como muitos já venceram antes. A arrancada na reta final foi fulminante e ele venceria se houvessem mais alguns metros de pista. Se não tivesse ficado encaixotado na última curva talvez chegasse com mais fôlego. Nyquist que se cuide, a história da tríplice coroa de 2016 só está começando.