O sofrimento por uma causa maior
O gélido vento que sopra sobre as encostas de Cortina d'Ampezzo parecia carregar, naquela manhã, um lamento que vai além do simples assobio da natureza. Ali, onde a neve encontra o céu em um abraço de cristal, o destino voltou a tecer sua trama mais cruel contra Lindsey Vonn. Aos 41 anos, a "Rainha da Velocidade" não buscava apenas o ouro, mas o impossível: desafiar o tempo e o próprio corpo, que há muito clamava por repouso. O silêncio sepulcral que se abateu sobre a plateia italiana, outrora vibrante, quando a lendária esquiadora estancou sua descida após meros treze segundos, foi o som mais ensurdecedor de uma carreira marcada por glórias monumentais e dores cruciais. Vonn, que retornara de uma aposentadoria de seis anos com uma prótese de titânio no joelho e a alma blindada pela obstinação, viu seu sonho olímpico ser içado aos céus por um helicóptero de resgate, enquanto o eco de seus gritos de dor ainda pairava sobre a pista Olympia delle Tofane.A tragédia das Olimpíadas de Inverno em Milão-Cortina não foi um ato isolado, mas o capítulo final de uma sinfonia de sacrifícios que define a essência desta atleta. A jornada para estes Jogos já havia sido batizada pelo sangue e pela incerteza; apenas nove dias antes da cerimônia de abertura, uma queda brutal em Crans-Montana rompera o ligamento cruzado anterior de seu joelho esquerdo. O mundo assistiu, entre a admiração e o pavor, à sua decisão de competir sem o ligamento, sustentada apenas pela força muscular e por uma vontade inquebrável. Essa relação masoquista com a montanha é um espectro que a persegue desde o início e quase sempre antes de uma Olimpíada. Como esquecer o traumático acidente nos treinos de Turim 2006, que a levou ao hospital apenas para vê-la retornar à pista dias depois? Ou o mistério de Vancouver 2010, onde uma grave lesão na canela ameaçou sua participação até o último segundo, resultando em um ouro histórico arrancado às custas de anestésicos e pura bravura? Até mesmo a ausência em Sochi 2014, quando o corpo finalmente cedeu antes da largada, serviu para cimentar a imagem de uma guerreira que nunca soube quando recuar.
Hoje, porém, o cenário possui matizes mais sombrios. O acidente em Cortina d'Ampezzo, que resultou em uma fratura exposta e a necessidade de intervenção cirúrgica imediata, parece ser o ponto final que a biologia impõe à lenda. Se em 2019 a despedida foi um adeus planejado, cercado por flores e reverência, este desfecho nos picos italianos assemelha-se a uma queda em pleno campo de batalha. É difícil imaginar que, após tantas reconstruções, o corpo de Vonn aceite mais uma jornada de reabilitação para enfrentar as pistas a 130 quilômetros por hora. O adeus que se desenha não é o de uma atleta derrotada, mas o de um mito que preferiu a queda espetacular ao oblívio do conforto. Lindsey Vonn provou que a imortalidade esportiva não se alcança apenas cruzando a linha de chegada, mas tendo a coragem de alinhar-se no portão de largada quando ninguém mais ousaria fazê-lo. Se este for, de fato, o fim definitivo, ele será lembrado como o ato final de uma mulher que nunca teve medo de quebrar para tentar voar.


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