Ele lembrou de 2007 e 1989

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Ainda na primeira semana do Tour de France 2011, ainda na quarta etapa com um percurso quase todo plano, Alberto Contador atacava no final dos 172 Km percorridos entre as cidades de Lorient e Mûr-de-Bretagne. O espanhol cruzou a linha de chegada fazendo um gesto que naquele momento não imaginava que jamais o repetiria até o final da competição. O tricampeão, no entanto, estava equivocado em sua festa como comprovou o foto-finish, a vitória na verdade foi do australiano Cadel Evans, o ciclista de 34 anos de idade que já amargou dois vice-campeonatos na competição mais importante do ciclismo mundial e que nunca desistiu de buscar o seu sonho. Para muitos era o único que ainda tinha chances de superar Andy Schleck, para ele mesmo as possibilidades talvez fossem maior do que qualquer prognóstico, e um dos anos de vice-campeão comprovava bem essa teoria.

O ano de 2010 não poderia ser levado em consideração, e o fato de Andy Schleck ter ficado em segundo lugar nas últimas duas edições, com Contador vencendo e com Contador fora desta disputa não fizeram a menor diferença. A expressão de força acima dos limites humanos, os olhos vermelhos e cheios de lágrimas no alto do pódio mostram como sua determinação foi incrível no penúltimo dia do Tour de France, mostraram o quanto seu trabalho foi inteligente e bem planejado, sem desespero, esperando o momento certo para triunfar. Em 2008 o segundo vice veio após a etapa da contra-relógio, com a liderança mantida por Carlos Sastre. Já em 2007 a base para uma esperança nesse ano de 2011 que nunca havia sido deixada de lado, o australiano sabe fazer uma prova contra o relógio realmente espetacular.

Contador foi campeão pela primeira vez em 2007, mas talvez naquele ano Cadel Evans já pudesse ter faturado o seu primeiro título. A desvantagem do australiano antes da prova de contra-relógio era de 1min50s, terminando em apenas 23 segundos depois da prova individual. E muito provavelmente foi nessa ano que Evans baseou toda a sua esperança para 2011, quando tinha 57 segundos de desvantagem para Andy Schleck, considerando também que o luxemburguês não é bom nesse tipo de disputa, e era para ser, um campeão sempre tem que ter um contra-relógio bom, Contador tem, Lance Armstrong era um verdadeiro especialista. No meio do público ele pedala como nunca, nas subidas, nas descidas, na reta final, depois de 20 etapas e mais de 3300 Km percorridos a camisa amarela é finalmente sua, para o desfile triunfal até Paris.

Neste domingo o código de ética não permite que haja uma briga pela camisa amarela, essa é a grande tradição do Tour de France, mas nem sempre foi assim. Em 1989 a última etapa era justamente a etapa de contra-relógio, aconteceu no dia 23 de julho, trecho de 25 Km entre Versailles e Paris. Naquela ocasião Laurent Fignon tinha a camisa amarela de líder, tinha 58 segundos de vantagem para o segundo colocado, ironicamente quase os mesmos 57 segundos que Schleck tinha nesse ano. Não era suficiente para vencer, Greg LeMond venceu a etapa como Cadel Evans quase venceu neste sábado, e assumiu a liderança por apenas oito segundos, a menor diferença da história. Cadel Evans não passou raspando, conseguiu ainda colocar 1min34s em Andy que será vice pela terceira vez seguida, algo que o australiano não queria mais, agora ele finalmente é primeiro, pela primeira vez, sem ataques fulminantes, sem comemorar sua própria vitória em etapa e sem desespero. Cadel Evans teve paciência para esperar seu dia chegar e será campeão justamente por ter corrido com calma e paciência. (Foto: AFP PHOTO / PASCAL PAVANI via Getty Images)

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