Lendas das Olimpíadas - Roma 1960

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Certamente não dentro do Estádio Olímpico de Roma, mas talvez fosse um acontecimento para Benito Mussolini ver a engolir como aconteceu com Adolf Hitler nos Jogos Olímpicos de 1936. A Itália havia invadido a Etiópia. Foram necessários um milhão de soldados para que um país grande forte ocupasse o outro pequeno, pobre e muito mais fraco. Mas anos depois foi preciso "apenas um soldado etíope para conquistar Roma". Sem Mussolini para presenciar o fato, mas com uma multidão vendo ao vivo pela TV que teve transmissões para mais de 18 países. Abebe Bikila, correndo com os pés descalços, se tornava o primeiro negro africano a ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos.

De origem humilde, o filho de um pastor de ovelhas do interior da Etiópia se tornou capitão da Guarda Real do Imperador Hailé Selassié. Enquanto no exército começou a correr, descalço, quando já estava com 24 anos de idade. Logo chamou a atenção do técnico Onni Niskanen, que viu todo o seu potencial, mas isso não o garantiu de imediato estar à bordo do avião que partia para a Itália. Para sua sorte, surgiu uma vaga de última hora, pois seu compatriota Wami Biratu havia quebrado o tornozelo durante uma partida de futebol. Ele e Mamo Wolde foram então inscritos para a maratona das Olimpíadas de Roma 1960, que tinha patrocínio da Adidas e alguns pares de tênis disponíveis para serem usados nas disputas.

Abebe Bikila experimentou alguns calçados, mas nenhum deles lhe deixou totalmente confortável para correr. O herói etíope então resolveu correr descalço, uma forma que encontrou para dizer que seus triunfos vinham "com heroísmo e determinação". Do técnico ouviu apenas que deveria se preocupar com o marroquino Rhadi Ben Abdesselam, que estaria correndo com o número 26. O rival, no entanto, acabou usando o número 185. Ambos acabaram dominando a disputa, mas Bikila forçava mais o ritmo pois achava que o competidor com o número 26 estava mais à frente. Quando chegou no obelisco de Axum, peça retirada pelos italianos da Etiópia, acelerou e venceu com recorde mundial.

Uma chegada épica e histórica, sob o Arco de Constantino, um símbolo de poder e superação dos italianos cujos representantes não conseguiram mais do que o 37º e 38º lugar. Um novo rumo na história do atletismo que passaria a ser dominada pelos africanos, que viu um homem ser o melhor da história até então correndo literalmente com os pés no chão. Abebe Bikila, o primeiro atleta que conseguiu vencer duas maratonas seguidas em Jogos Olímpicos, já que triunfou também nas Olimpíadas do Japão 1964. Um atleta que quase foi campeão também no México 1968 se não fosse uma lesão no joelho. Feitos que lhe renderam não ser morto em seu país por questões políticas e que o fez ganhar um carro de presente. O mesmo carro que lhe deixou paralítico em um acidente em 1969 e tirou sua vida quatro anos mais tarde, sem antes eternizar seu nome como uma das maiores lendas das Olimpíadas de todos os tempos. (Foto: Arquivo)

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