Chegou a hora de trocar o pôster da parede

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Em uma linda tarde de sol, vestindo a camisa número 44 do New England Patriots, ele corre como nunca mais correria novamente em toda a sua carreira e anota outro touchdown. John Stephens não havia sido a 17ª escolha da primeira rodada do draft da NFL de 1988 por acaso. O running back novato de Northwestern State completou 1.168 jardas naquele ano e foi merecidamente eleito para atuar no Pro Bowl, além de ter ganho o prêmio de NFL Offensive Rookie of the Year. Foi um ano inesquecível, mas o resto da sua carreira foi para esquecer. No Patriots ele ficou até 1992 e em 1993 passou pelo Packers, Falcons e Chiefs antes de encerrar a carreira. Terminou com 3.440 jardas percorridas e 18 touchdowns. Pucos sabiam, mas John Stephens tinha muito mais problemas fora de campo do que glórias e triunfos dentro dele.

Problemas de dependência que jamais foram esclarecidos. Um tema pouco abordado que talvez tenha sido fundamental para o fim de sua carreira e para o drama pessoal que viveu em 1994. Preso no Missouri, se declarou culpado em um caso de estupro para ganhar liberdade condicional. No mesmo ano também foi acusado de agressão. Não faltavam motivos para que sua esposa Sybil Smith (primeira nadadora afro-descendente a figurar no grupo de elite da Universidade de Boston em 1988) pedisse o divórcio. Fim de uma possível brilhante carreira no esporte, fim de um casamento entre dois atletas que tinha tudo para dar certo e se não bastasse o fim da vida também, literalmente. John Stephens morreu em um acidente de carro em 2009, sem ter a chance de conhecer melhor a sua filha.

Ela nasceu em 1993, no mesmo ano que John Stephens parou de jogar futebol americano profissionalmente. Ela encontrou seu pai umas duas ou três vezes durante toda a sua vida. Ela sempre buscou informações sobre ele na Internet e sua mãe sempre lhe contava boas histórias. Uma pessoa generosa e de bom coração. A NFL lhe prestou uma linda homenagem por seu trabalho incansável com o Centro de Saúde Integral na comunidade de Roxbury. Mas um dia ao invés de ver seu pai marcando um touchdown em vídeos no youtube, Sloane Stephens encontrou na Internet as histórias sobre sua prisão em 1994, e isso a fez chorar, principalmente porque sua mãe jamais lhe havia contato. Havia então uma grande tristeza, mas havia também o tênis, e tudo graças à sua mãe, que à introduziu nesse esporte quando tinha apenas nove anos de idade.

Sloane recebeu a notícia da morte do pai pouco antes do início do US Open. Uma dúvida sobre ir ou não ao enterro pairava em sua mente, havia duas semanas que conversara com ele pelo telefone. A vida poderia ter sido menos difícil se John Stephens tivesse continuado correndo como Adrian Peterson corre atualmente. Se ele tivesse continuado a fazer sucesso com a camisa 44 do Patriots e se o seu casamento não tivesse chegado ao fim. Se ele tivesse participado mais vezes do Pro Bowl, se tivesse ganhado mais prêmios sem ser apenas um novato e se tivesse tido a oportunidade de ser campeão do Super Bowl. Se tivesse conhecido melhor a filha, se tivesse a chance de ser visto por ela no estádio jogando como nos bons e velhos tempos, se estivesse vivo para fazer o contrário e poder vê-la jogando. Porque ela conseguiu chegar lá com apenas 19 anos de idade.

As vinte mensagens que tinha no celular se transformam em mais de duzentas e isso só a faz se preocupar com a conta que terá de pagar. Seu número de seguidores no Twitter não para de aumentar e ela recebe twitadas de Dirk Nowitzki, Shaquille O'Neal e até de John Legend, o famoso cantor que tinha um card do pai dela quando era criança. Sloane quer que ele cante em seu casamento e isso pode mesmo acontecer. Tudo porque Sloane Stephens talvez seja agora mais famosa do que seu pai, que nunca conheceu direito, foi. Tudo porque ela simplesmente derrotou Serena Williams na semifinal do Aberto da Austrália e o mundo teve o prazer de conhece-la como seu pai nunca a conheceu direito. E logo sua compatriota Serena Williams, tão parecida com ela, de quem ela é fã e de quem possui um pôster na parede do seu quarto em Los Angeles, onde mora. "Já posso colocar um pôster meu no lugar" - disse a promissora jovem jogadora, que certamente jamais pensou em colocar o pôster de um jogador de futebol americano que costumava jogar com o número 44 em 1988.

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