Da Escócia, mas ser britânico é o que importa

15:37 Net Esportes 1 Comments

Foi naquele ano que nasceu Jorge Mario Bergoglio, o atual e recém eleito Papa Francisco. Faz tanto tempo que os filmes no cinema eram em preto e branco, como "Perigosa", que rendeu o Oscar de melhor atriz à simpática Bette Davis. Em Buenos Aires o Obelisco era construído, enquanto que na Alemanha todos contemplavam o primeiro voo do dirigível Hindenburg. Neste ano também nasceu Zubin Mehta e Dedé Santana, e eles nem imaginavam que o vencedor do prêmio Nobel da Paz havia sido Carlos Saavedra Lamas. Era o ano de 1936, um ano que viu as Olimpíadas acontecerem em Berlim, batendo na porta da Segunda Guerra Mundial, mas ainda celebrando o esporte e ainda vendo um britânico alcançar a glória maior de ser campeão do torneio de Wimbledon, pela última vez na história, até hoje.

Talvez fosse porque o Rei Eduardo VIII, do Reino Unido, abdicou de sua coroa e passou para o irmão Jorge VI. Mesmo que o poder continuasse em família, como ele poderia dar às costas à sua pátria? E logo um nativo de White Lodge, o palácio georgiano situado em Richmond Park, na periferia sudoeste de Londres. A Inglaterra e seus célebres conterrâneos, como William Renshaw, o fantástico jogador de tênis que conseguiu a inacreditável marca de sete títulos no célebre e tão tradicional torneio de Wimbledon. Um feito que só seria igualado muitos ano depois e apenas na Era Aberta, quando Pete Sampras e Roger Federer reescreveram a história. Uma belíssima história que naquele tempo só tinha espaço para britânicos, em especial ingleses, pelo menos até o ano em que Fred Perry encerrou a sequência da época feliz.

Foi a muito tempo, já fazem 77 anos. Um longo jejum que britânico nenhum imaginava que pudesse acontecer. E logo no torneio de Wimbledon, que em seus primórdios lá nos 1870 e 1880 só via nativos erguendo o tão aclamado troféu. Harold Mahony, Reginald Doherty, Arthur Gore e Lawrence Doherty. Até o dia que os australianos, os neozelandeses, os americanos e até os franceses começaram a aparecer. Até o ano de 1936, aquele em que o atual Papa nasceu, o dia em que alegria do britânico morreu. O dia em que Fred Perry conseguiu a última glória de ser campeão em Wimbledon, pela terceira vez consecutiva, sem imaginar que seria a sua última vez, a última vez de um inglês e a última vez de um britânico. Dando início aos longos e intermináveis 77 anos de jejum, uma espera que finalmente teve seu fim neste domingo.

Ele veio direto da Escócia, mas ser britânico é o que importa. Ele adotou Ivan Lendl como técnico, mesmo que Lendl nunca tenha vencido em Wimbledon. Ele acreditou mais que Tim Henman, ele fez o torcedor acreditar mais nele e ele foi mais além do que qualquer outro representante do Reino Unido nos últimos 77 anos, chegando na grande final de Wimbledon em 2012. Ele sempre almejou ser mais do que o quarto melhor jogador do mundo, por isso ele venceu as Olimpíadas em Londres e por isso ele faturou seu primeiro título de Grand Slam quando se tornou campeão do US Open no ano passado. Ele já fez a Rainha da Inglaterra ir até o All England Club quando ele era apenas uma promessa, e hoje ele teve a honra de ver na plateia o primeiro ministro britânico e outras celebridades locais como Gerard Butler, ou não locais como Bradley Cooper. Tudo porque esse era o dia de fazer a história acontecer, e ela aconteceu mesmo.

Um acontecimento tão histórico no esporte que o dia de verão em Londres ficou ainda mais bonito, com milhares de pessoas nas ruas, e muitas delas com seus olhares fixos na TV. A quadra central do All England Club estava em transe, vibrava a cada ponto de seu pupilo e derramava emoções através do olhar atento e penetrante de Kim Sears. O rival do outro lado da rede era valente, feroz e não queria se entregar jamais. Afinal era o número um do mundo, era Novak Djokovic e ele também não queria perder. Mas desta vez o britânico também não queria ser derrotado, por isso ele correu como um alucinado, para que desta vez o representante local enfim pudesse triunfar na capital da Inglaterra, mesmo que ele seja da Escócia, mas isso é o que menos importa. Porque após 77 longos e intermináveis anos a espera se encerrou, um britânico venceu. Andy Murray é campeão de Wimbledon, ou melhor, Sir Andy Murray é grande campeão do torneio de Wimbledon.

1 comentários:

Ron Groo disse...

Eu li um tweet que dizia que numa transmissão (não me lembro qual) quando ele perdeu disseram apenas que ele era escocês, agora que ganhou, os mesmos caras só o descreviam como britânico.