Senegal perde o título no tapetão

10:32 Net Esportes 0 Comments

O futebol africano acaba de mergulhar em um dos capítulos mais sombrios e surreais de sua história, e a pergunta que ecoa de Dakar a Casablanca é uma só: até quando o "tapetão" terá mais força do que o grito de gol? A decisão da Confederação Africana de Futebol (CAF) de retirar o título da última Copa Africana de Nações da Seleção de Senegal, entregando a taça a Marrocos por um suposto W.O., é uma aberração jurídica que atropela o bom senso e o mérito esportivo. Alegar que o abandono temporário de campo por parte dos senegaleses na final justifica a perda do troféu — mesmo após a equipe ter retornado, jogado e vencido dentro das quatro linhas — é ignorar a soberania do campo em favor de uma burocracia cega.

O primeiro ponto que causa indignação é a morosidade inexplicável dessa "justiça". Por que tamanha demora para anunciar uma solução para o caso? Se houve uma infração grave o suficiente para mudar o destino de uma taça continental, essa decisão deveria ter sido tomada em horas, não meses depois. Manter o continente em um limbo de incerteza apenas corrói a credibilidade da instituição. Se o abandono de campo era um crime sem perdão, por que a arbitragem e os delegados da CAF permitiram que o jogo recomeçasse? Ao apitar o fim da partida e permitir a cerimônia de premiação, a própria CAF validou o resultado. Punir agora é confessar a própria incompetência administrativa no dia do evento.

A justiça dessa decisão é, no mínimo, questionável. O futebol se decide no suor, no talento e na estratégia, e Senegal provou ser superior no gramado. Se a intenção era punir a indisciplina ou o protesto da equipe, o arsenal de sanções da federação é vasto. Por que não foi aplicada uma multa pesada, que afetasse as finanças da federação senegalesa, ou até mesmo a suspensão de Senegal das próximas edições da competição? Banir o campeão de defender seu título no futuro seria uma punição severa e pedagógica, mas retirar uma conquista já celebrada e consolidada é um golpe na alma do esporte. O título agora entregue a Marrocos nasce com uma mancha eterna; será lembrado não pela competência de seus jogadores, mas por uma canetada em um escritório refrigerado.

A reação de Senegal, como era de se esperar, é de rebeldia total: a federação já declarou que o troféu físico não sairá de Dakar. Essa postura coloca a CAF em uma encruzilhada perigosa. O que virá a seguir? Veremos cenas lamentáveis de intervenção ou uma caça ao tesouro diplomática? O futuro das competições africanas sob essa gestão parece sombrio, com a criação de um precedente onde qualquer incidente de jogo pode ser judicializado para alterar resultados meses depois. O clima para o próximo encontro entre Senegal e Marrocos já ultrapassou a rivalidade esportiva; transformou-se em uma questão de honra nacional e vingança. A CAF não apenas mudou o dono de uma taça, ela plantou uma semente de discórdia que pode incendiar o futebol no continente por décadas, provando que, às vezes, os maiores inimigos do esporte não estão na arquibancada, mas nas cadeiras de quem deveria protegê-lo.

0 Comentários: