A perseguição à Vini Jr. no futebol

A trajetória de Vinícius José Paixão de Oliveira Júnior no futebol europeu tem sido marcada por uma dualidade desconcertante: de um lado, a ascensão meteórica de um dos talentos mais decisivos do mundo; de outro, a persistência de um cenário hostil que o coloca, reiteradamente, como alvo de manifestações racistas. O episódio ocorrido nesta semana, durante o confronto entre Real Madrid e Benfica pela Champions League, não é um fato isolado, mas o prolongamento de uma dor que o esporte mais popular do planeta ainda não conseguiu extinguir. Ao ser novamente agredido com insultos de cunho racial, Vini Jr. personifica uma luta que ultrapassa o campo tático e técnico, revelando a resistência de estruturas discriminatórias que se manifestam de forma visceral nos campos e nas arquibancadas.

É notável, contudo, que essa perseguição pareça ter um foco específico no atacante brasileiro, uma vez que o próprio elenco do Real Madrid é composto por outros atletas pretos ou negros — como Jude Bellingham, Antonio Rüdiger ou Rodrygo — que, embora não estejam imunes ao preconceito, não enfrentam a mesma frequência ou intensidade de ataques coordenados. Essa seletividade sugere que a ofensa não se dirige apenas à cor da pele, mas à postura de Vinícius: seu estilo de jogo audacioso, sua celebração por meio da dança e, sobretudo, sua recusa em silenciar diante das agressões parecem incomodar aqueles que aceitam a presença do negro no esporte apenas sob a condição da subserviência ou da discrição absoluta.

A insistência no uso do termo "macaco" como ferramenta de humilhação carrega um peso histórico e simbólico que desvirtua qualquer tentativa de comparação com os xingamentos comuns proferidos no calor de uma partida. Enquanto ofensas direcionadas à conduta moral ou familiar de um jogador visam atingir o indivíduo, o insulto racial busca a desumanização sistêmica. Do ponto de vista biológico e antropológico, a utilização dessa denominação é fundamentada em uma ignorância profunda acerca da evolução humana. A ciência estabelece que humanos e macacos modernos não descendem uns dos outros, mas sim compartilham um ancestral comum que habitou o continente africano há milhões de anos. Ao longo do processo evolutivo, as diferentes linhagens se separaram, culminando no Homo sapiens. Portanto, a tentativa de aproximar o negro de um primata não humano para sugerir inferioridade é um anacronismo científico baseado em teorias racistas do século XIX, que buscavam justificar a escravidão e a exclusão social. Quando um torcedor utiliza essa palavra, ele não está apenas "provocando" um adversário; ele está evocando séculos de violência, negação de direitos e a falsa premissa de que existem escalas de humanidade baseadas na melanina, essas pessoas não fazem ideia que a pele humana só começou a clarear há apenas 8.000 anos atrás.

A dor causada por esse tipo de ofensa é profunda justamente porque ela não ataca o jogador por um erro em campo, mas por sua essência e por toda uma ancestralidade. Em um ambiente onde o "trash talk" e os xingamentos são muitas vezes normalizados como parte do espetáculo, o racismo se distingue por ser uma ferramenta de exclusão que diz à vítima que ela não pertence àquele espaço. Vini Jr., ao enfrentar essa perseguição, acaba assumindo um fardo desproporcional para um jovem atleta, tornando-se o para-raios de um ódio que se recusa a aceitar o protagonismo negro sem ressalvas. A recorrência desses casos exige que as instituições desportivas e a sociedade civil abandonem a retórica das notas de repúdio e avancem para punições rigorosas e reformas educacionais. Somente assim o futebol deixará de ser um palco de barbárie intelectual e biológica para ser, de fato, o campo onde o talento prevalece sobre o preconceito, e onde a celebração da vida e da cultura não seja interpretada como um crime que justifica a agressão.

Mikaela Shiffrin, a maior de todas

Nas gélidas e imponentes encostas de Cortina d'Ampezzo, o cenário estava montado para um dos atos de redenção mais dramáticos da história dos esportes de inverno. Mikaela Shiffrin, a esquiadora que carrega em seus ombros o peso de recordes e expectativas quase sobre-humanas, conquistou a medalha de ouro no Slalom feminino nos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina 2026, reafirmando sua soberania absoluta em um momento de extrema fragilidade psicológica. A vitória não foi apenas uma questão de cronômetro, mas um manifesto de resiliência. Após uma participação amarga em Pequim 2022, onde saiu sem qualquer medalha apesar do favoritismo, e de enfrentar um início conturbado nestas Olimpíadas — marcadas por desempenhos aquém do esperado no Slalom Gigante e no Combinado — Shiffrin chegou à prova de Slalom pressionada pelo fantasma do fracasso e pela urgência de um resultado que fizesse justiça à sua trajetória.

O desempenho que lhe garantiu o topo do pódio foi uma aula magistral de técnica e agressividade controlada. Shiffrin encerrou a primeira descida com uma vantagem substancial de 0.82 segundos, uma margem que, no universo milimétrico do Slalom, já sinalizava sua superioridade técnica. Contudo, foi na segunda descida que ela conseguiu a superação. Enquanto suas adversárias lutavam contra as imperfeições da pista, Mikaela deslizou com uma precisão cirúrgica, acelerando nos trechos mais críticos e cruzando a linha de chegada com uma vantagem total de 1,50 segundo sobre a suíça Camille Rast. Trata-se da maior margem de vitória registrada em uma prova alpina olímpica desde 1998, um abismo temporal que ilustra a distância técnica entre Shiffrin e o restante do mundo quando ela está em seu estado de fluxo pleno.

Ao conquistar seu terceiro ouro olímpico, Shiffrin não apenas quebrou um jejum de oito anos sem títulos nos Jogos, mas também se isolou como a esquiadora alpina norte-americana mais bem-sucedida em termos de medalhas douradas. É impossível analisar tal feito sem traçar um paralelo com Lindsey Vonn, o ícone que por anos definiu a imagem do esqui americano. Vonn, dotada de um carisma magnético e de uma propensão ao risco que cativava as massas e o marketing, permanece, para muitos, como a figura mais vangloriada e mística do esporte. Entretanto, os números e a longevidade de Shiffrin agora projetam uma sombra incontestável sobre qualquer comparação puramente estatística. Enquanto Vonn era a personificação da velocidade pura e do drama das quedas, Shiffrin é a essência da consistência e da perfeição técnica em todas as disciplinas. Superar os recordes de Vonn em vitórias na Copa do Mundo já havia sido um marco, mas este ouro em 2026, sob tamanha pressão, coloca Mikaela em um patamar tão alto que vai muito além de uma popularidade efêmera.

Esta conquista em solo italiano encerra qualquer debate sobre a posição de Mikaela Shiffrin na história: ela é, por mérito, estatística e agora por prova de nervos, a maior esquiadora de todos os tempos. O choro ao final da prova, misto de alívio e triunfo, foi o desabafo de uma atleta que aprendeu a lidar com a humanidade de suas falhas para, enfim, abraçar a eternidade de seu talento. Shiffrin não apenas venceu uma corrida; ela resgatou sua própria lenda das neves de Cortina, provando que a grandeza não reside na ausência de queda, mas na capacidade de dominar a montanha quando o mundo inteiro espera que você tropece.

Triunfo de Reddick e glória de Jordan

A sexagésima oitava edição da corrida Daytona 500, realizada no dia 15 de fevereiro de 2026, consolidou-se na história do automobilismo pela velocidade e pela paciência estratégica, além do peso dos nomes envolvidos nos bastidores. Desde a bandeira verde, o que se viu no asfalto da Flórida foi uma prova de nervos, onde a economia de combustível e a preservação do equipamento ditaram o ritmo das primeiras cento e vinte voltas. O pelotão, denso e cauteloso, movia-se em blocos de três carros lado a lado, em um exercício de aerodinâmica e contenção que escondia a agressividade latente dos pilotos. Enquanto favoritos buscavam a liderança precoce, Tyler Reddick, a bordo do Toyota número 45 da equipe 23XI Racing, mantinha-se propositalmente na penumbra. Sua pilotagem foi um exercício de invisibilidade tática; longe das disputas mais acirradas que culminaram em um "Big One" devastador na volta 124 — envolvendo cerca de vinte carros e eliminando nomes de peso —, Reddick permaneceu no segundo pelotão, poupando o motor e evitando os destroços que pontuaram a pista.

A narrativa da prova mudou drasticamente nos quilômetros finais, quando a necessidade de sobrevivência deu lugar à urgência da vitória. Reddick, que até então mal havia figurado entre os cinco primeiros, começou a ganhar posições de forma cirúrgica conforme o relógio se aproximava da volta 200. A última volta, no entanto, reservou um pandemônio raramente visto na história da prova. No momento em que a bandeira branca foi agitada, o então líder Carson Hocevar perdeu o controle após um toque, desencadeando o primeiro acidente da volta final e fragmentando o grupo dianteiro. Chase Elliott assumiu a ponta temporariamente, mas a estratégia da 23XI Racing provou-se infalível quando Riley Herbst, companheiro de equipe de Reddick, posicionou-se para dar o empurrão aerodinâmico decisivo. Com uma manobra audaciosa, Reddick saltou para a liderança nos metros finais. A poucos instantes da linha de chegada, um segundo e violento acidente envolveu Elliott, Ricky Stenhouse Jr. e Joey Logano, que cruzaram o marco final em meio a rodopios e faíscas, enquanto o carro 45 de Reddick desfilava incólume rumo à bandeira quadriculada, tendo liderado apenas a última e mais importante volta da corrida.

O grandioso triunfo saiu das pistas para ecoar no legado de uma das maiores lendas do esporte mundial. Michael Jordan, coproprietário da equipe 23XI Racing, celebrou na Victory Lane uma das conquistas mais emblemáticas de sua trajetória como empresário do automobilismo. Visivelmente emocionado e às vésperas de completar 63 anos, o ícone do basquete comparou a emoção de vencer a Daytona 500 à conquista de um título da NBA, ressaltando que a glória no asfalto possui uma mística singular. Para Jordan, ver seu carro triunfar na prova máxima da NASCAR não foi apenas um resultado esportivo, mas a validação de um projeto de anos e um presente histórico que imortaliza sua marca em um dos templos mais sagrados da velocidade mundial.