À medida que o Tour de France de 2026 se aproxima de seu clímax nos Alpes, a sensação que paira no ar é de uma grande superação, e também de uma inevitável dinastia. Tadej Pogačar transforma cada subida, cada aceleração e cada contra-relógio em uma demonstração quase avassaladora de poder. A camisa amarela parece ter sido desenhada sob medida para o esloveno, que responde a cada ataque rival com uma serenidade desarmante e com pernas que parecem imunes ao desgaste com quase três semanas de competição brutal.
XX
O cenário deste ano tornou-se ainda mais favorável ao líder com o doloroso abandono de Jonas Vingegaard. Sem o seu grande rival e único ciclista capaz de colocá-lo em apuros nos últimos anos, a disputa pelo topo da classificação geral perdeu a sua tensão dramática central. Ao mesmo tempo, Remco Evenepoel, apesar de lampejos de genialidade e vitórias isoladas em etapas, pouco pôde fazer para ameaçar o domínio esloveno nas longas e inclinadas montanhas alpineas. O belga mostrou garra, mas a diferença de ritmo e consistência nos grandes Alpes deixa claro que o abismo entre o topo absoluto e o restante do pelotão continua profundo.
XX
É sob este panorama de hegemonia que a prova encara o seu momento mais icônico e temido: o duplo confronto com a mítica subida do Alpe d'Huez. Em um desenho de percurso inédito e audacioso para esta edição de 2026, a gigante alpina se coloca no caminho dos atletas de duas formas distintas em dias consecutivos. Na sexta-feira, os ciclistas encaram a subida tradicional através dos seus lendários 21 viragens no asfalto; já no sábado, a montanha impõe o seu desafio pelo lado oposto, descendo e subindo por acessos alternativos como a descida e a conexão via Col de Sarenne e as grandes altitudes do Galibier, testando a capacidade de adaptação e o sofrimento dos atletas em um intervalo de poucas horas.
XX
O Alpe d'Huez não é apenas uma montanha no percurso do Tour de France; é o templo sagrado do ciclismo moderno, onde triunfos gloriosos e colapsos devastadores moldaram a história do esporte ao longo das décadas.
XX
Para compreender a mística que envolve estes dois dias decisivos, basta olhar para o passado repleto de histórias eternas escritas naquelas rampas:XX
* A "Montanha dos Holandeses": Uma tradição construída entre os anos 1970 e 1980, quando ciclistas dos Países Baixos como Joop Zoetemelk e Peter Winnen dominaram a subida e transformaram o virgem número 7 em um mar laranja de torcedores.
* O duelo de 1986: A histórica chegada de mãos dadas entre Bernard Hinault e Greg LeMond, simbolizando a passagem de bastão de duas eras do ciclismo.
* A velocidade sobre-humana de 1995: Marco Pantani cravou o recorde de ascensão mais rápida da história nos 21 viragens, voando montanha acima em uma performance que permanece inigualável até hoje.
Com as montanhas prontas para coroar o campeão nas estradas até Paris, o pelotão assiste ao monólogo de Pogačar com misto de admiração e resignação. Mas a história do ciclismo ensina que nenhum império dura para sempre. Enquanto o esloveno reina no topo, a pergunta que ecoa entre analistas e torcedores é inevitável: será Tadej Pogačar capaz de manter essa supremacia irretocável nos próximos anos, ou a vertiginosa ascensão da nova geração — liderada por jovens prodígios como o francês Paul Seixas — conseguirá desafiar e superar o soberano em um futuro muito mais próximo do que imaginamos?
O Tour de France está entre as três maiores competições de ciclismo do mundo em cada ano, mas se formos colocar lado a lado com o Giro de Itália e com a Vuelta a Espanha, fica difícil não exaltar o desafio francês como o maior de todos eles. E sendo assim, ás vezes os seus vencedores podem ser considerados como extraordinários dependendo da forma como chegaram lá. Neste ano de 2019 foi assim, com um colombiano que fez história duas vezes, depois que a França chegou muito perto de ver um nativo sendo campeão outra vez. Não deu para eles e para mais nenhum outro favorito, porque a vez entre tantos não-favoritos foi de um jovem como fizera Alberto Contador em 2007, além da primeira vez de um sul-americano campeão em toda a história da prova.
Dentre todos os sul-americanos, a Colômbia sempre foi o país que mais perto havia chegado da grande glória de vencer o Tour. Na história recente tivemos Fabio Parra, Luis Herrera e talvez o mais conhecido de todos que foi Santiago Botero, um ciclista que duelava com Lance Armstrong na época que ninguém sabia do uso de doping do americano. Ele só venceu o prêmio de escalador no ano 2000, mas dava muito trabalho. O tempo passou e então surgiu Nairo Quintana, jovem mais bem colocado em 2013 e vencedor do prêmio de escalador no mesmo ano. Em 2015 ainda era o jovem mais bem colocado, venceu o Giro de Itália e também a Vuelta a Espanha, mas as duas grandes competições não são tão grandiosas como o Tour, faltava um pouco mais para a Colômbia e para os sul-americanos.
Faltava e ainda faltará também para a própria França. O país anfitrião da maior competição de ciclismo do mundo já viu seus atletas brilharam muitas vezes, é claro, mas não vêem mais desde 1985 quando Bernard Hinault subiu no ponto mais alto do pódio pela primeira vez. As esperanças se renovaram este ano, eles tinham Julian Alaphilippe surpreendendo já na etapa 3 quando assumiu a camisa amarela. Ela se foi na sexta etapa, mas retornou na oitava para não sair mais até pelo menos a décima nona e ante-penúltima etapa do Tour de 2019. Foi um dia trágico, com chuva de granizo, pista bloqueada, deslizamento de terra na encosta, um grande caos e o encerramento da etapa antes do fim. Foi também o fim da linha para o francês que viu a liderança ir por água abaixo.
Tristeza de um lado. Alegria e emoção comovente do outro. Egan Bernal vestiu a camisa branca de jovem mais bem colocado na etapa dez. Ele a perdeu por um momento, mas depois não a tirou mais. Em 2007 o espanhol Alberto Contador havia sido campeão geral e também o jovem mais bem colocado. A façanha se repetiu em 2010 com Andy Schleck, mas o luxemburguês já havia sido o jovem mais bem colocado nos dois anos anteriores. Ser o jovem mais bem colocado e ainda vestir a camisa amarela é para poucos, principalmente quando um francês lidera em casa, principalmente quando seu compatriota ainda corre e vence uma etapa, ou seu companheiro de equipe é o vencedor do ano anterior. A pressão era grande, mas o jovem ciclista conseguiu triunfar, e conseguiu ser o primeiro campeão da América Latina no Tour de France. Impossível não considerar isso extraordinário e colocá-lo como um dos maiores nomes do esporte no ano.
O troféu do Giro de Itália é um dos mais lindos do mundo. Mas ele poderia ser ainda mais bonito se não fossem tão flexíveis aquelas hastes curvadas que moldam toda a sua beleza e diferenciação dos demais. Essa possível fragilidade só pôde ser percebida por quem não está perto dele em Turim devido à forma como o campeão da nonagésima nona edição da prova segurou o cobiçado prêmio. A força excessiva que Vincenzo Nibali usava pode até ser muito bem compreendida, afinal o tubarão de Messina estava mais para um peixe fora d´água na última semana da competição do que para um devorador dos mares, porém ainda faminto para conseguir engolir os seus maiores rivais na disputa.
Antes da décima quinta etapa, Nibali tinha uma desvantagem de apenas 41 segundos na classificação geral do Giro de Itália de 2016. Depois disso a diferença pulou para mais de dois minutos e, logo iria aumentar cada vez mais. Depois de erguer a taça, o italiano revelou que não estava se sentindo bem naquele dia, mas que não poderia ter dito isso porque não poderia alertar seus adversários. Os jornais não quiseram saber e o que não faltou foram as criticas. O ciclista talvez pudesse se empenhar mais para quem sabe 'calar a boca' de quem fala mal dele, mas ele sabe que sua carreira já era consagrada com pelo menos um título em cada uma das três principais voltas ciclísticas do mundo.
Ele já venceu a Volta da Espanha, o Tour de France e já havia sido campeão do Giro de Itália em 2013. É claro que vencer novamente seria incrível, mas ele estava mal e ninguém sabia. Então Vincenzo Nibali, já com o belo e frágil troféu nas mãos, fez outra revelação. Sem chances de título, ele passou a correr mais solto e despreocupado, tudo isso depois de ter pensado em abandonar a competição. Se tivesse abandonado um outro ciclista teria ganhado. E não teria sido aquele cujo tempo tirava a esperança do italiano, pois este era um holandês que viu um paredão de neve acabar com as suas esperanças de glórias.
A nonagésima nona edição do Giro de Itália poderia ter sido a centésima. Foi memorável e emocionante. Disputas de contra relógio com vencedores marcando o mesmo tempo. Mudanças constantes no dono da maglia rosa. Indefinição até o penúltimo dia de competição. O holandês Steven Kruijswijk tinha três minutos de vantagem antes da etapa 19, mas na descida viu um paredão de neve no seu caminho, saiu voando e viu seu sonho de ser campeão criar asas a sumir no horizonte sem fim. Esteban Chaves é da Colômbia e não do México, mas assumiu a ponta e lembrou Roberto Gomes Bolaños. Mas lá na frente quem havia vencido a etapa era o tubarão de Messina, e agora ele estava pronto para engolir os seus rivais.
O sábado veio com esperanças colombianas e solidez italiana. Faltou perna para El Chavo del ocho, sobrou jogo de equipe para Tanel Kangert e Michele Scarponi. Os escudeiros conduzem e o líder faz o resto, abre vantagem na penúltima subida e controla tudo na técnica descida. Vincenzo Nibali havia perdido as esperanças, mas soube esperar a hora certa para dar o bote certeiro. O tubarão de Messina engoliu Kruijswijk na antepenúltimo dia e devorou Chaves no penúltimo. Em Turim fez o passeio da glória, com o belo e frágil troféu, segurando com força para não soltar mais, pois este agora é seu e ninguém mais poderá tirá-lo.