Camisa Amarela, eu quero vestí-la

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Era 1964. O Tour de France chegava ao fim no dia 14 de julho em Paris. A última etapa em contra-relógio teve vitória do ciclista local Jacques Anquetil, que garantiu o título de campeão daquele ano. Ele já estava vestindo a camisa amarela desde a etapa 17, quando havia vencido também um contra-relógio. Na época poucos deram importância ao segundo colocado, Raymond Poulidor que também era francês. Naquele ano ele não vestiu a camisa amarela, e jamais em toda a sua vida conseguiu ter essa oportunidade tão especial. Mais do que isso Poulidor ainda teve que amargar o vice por mais duas vezes e ficou em terceiro outras cinco vezes, sem nunca ter sido líder da competição nem por um único dia. Seu filho se tornou ciclista também, mas demorou até este ano, quando o seu neto finalmente deu à família a primeira oportunidade de vestir a tão desejada camisa amarela de líder do Tour de France.

Mathieu van der Poel, que apesar de ser neto de um francês e ter nascido na Bélgica, é holandês! Já com 26 anos ele é bem sucedido em cyclo-cross e mountain bike, mas não deixa o ciclismo de estrada de lado. Neste ano se aventurou no Tour de de France e, provavelmente, seu único obejtivo era somente vestir a camisa amarela de líder. E ela veio já na segunda etapa, de subidas leves onde ele acelerou no final talvez só pensando nisso e aproveitando aquela que pode ter sido a única chance de sua vida. Pior para Julian Alaphilippe, um tradicional "vestidor" da camisa amarela nas primeiras etapas. A honra do avô que nunca chegou lá estava garantida, e não foi por apenas um dia. Mathieu durou até pelo menos a a sétima etapa como líder, vendo inclusive Tadej Pogačar vencendo um contra-relógio nesse caminho glorioso.

Poel foi então embora. Ele abandonou a competição pois já havia alcançado seu objetivo. A camisa amarela então foi para Pogačar, que não a deixou escapar até o final. Poulidor viveu o resto de sua vida até os 83 anos provavelmente pensando em seu desejo de poder vestir a camisa amarela pelo menos um vez na vida. Já Pogačar passou o último ano pensando que poderia vesti-la por um pouco mais do que um único dia. No ano passado o esloveno conseguiu a façanha de ser campeão na penúltima etapa tirando um diferença de 53 segundos de seu compatriota Primož Roglič. Foi um campeão que pedalou com a tão desejada camisa amarela por apenas uma etapa, no desfile em Paris. Mas esta camisa é tão desejada, que ele queria um pouco mais e desta vez conseguiu, vestindo-a por 13 etapas e ainda conseguindo duas grandes vitórias para marcar ainda mais o bicampeonato.

A camisa amarela e mais duas das outras três camisas disponíveis. Assim como no ano passado, Tadej Pogačar ainda faturou a camisa branca de jovem mais bem colocado e a camisa branca com bolas vermelhas de melhor nas montanhas. Já a camisa verde de melhor sprinter ficou com o renascido Mark Cavendish, o ciclista britânico que estava a muito tempo sem vencer e que conseguiu quatro vitórias neste Tour, se tornando um dos maiores vencedores de todos os tempos com 34 triunfos, igualando a marca de Eddy Merckx. Na última etapa ele ficou irritado com a terceira colocação e chance perdida de ser o maior vencedor de todos os tempos. Mais tarde o sorriso voltou no pódio, mesmo que a verde não seja amarela, pois a amarela é muito mais difícil, é para poucos, é para netos de quem nunca havia vestido apesar de ter chegado tão perto e para um campeão que agora adorou vesti-la e não quer tirar nunca mais.

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