O turfe americano viveu neste ano de 2019 uma das temporadas mais malucas da Tríplice Coroa. Teve cavalo sendo desclassificado por interferência no Kentucky Derby. Teve cavalo correndo sem jockey e completando a prova no Preakness Stakes. E por fim, no Belmont Stakes, teve cavalo errado no lugar certo para vencer a corrida de forma inesperada. É muito comum nas corridas de cavalos que os donos dos cavalos acabem escolhendo ás vezes os mesmos treinadores de ouros cavalos; Só no Derby deste ano o famoso e vitorioso treinador Bob Baffert tinha três cavalos no páreo. Ele acabou não vencendo e, depois disso, só entrou com um cavalo no Preakness e não venceu também. No Belmont ele nem apareceu, mas o canadense Mark E. Casse estava lá com sede de vitória.
Depois de ter amargado apenas a sétima colocação na primeira corrida da Tríplice Coroa, Casse surpreendeu a todos com o triunfo de War of Will no Preakness. Aquela corrida onde Bodexpress chamou mais a atenção depois de ter feito John Velazquez sair voando no portão de largada. Aquele triunfo não poderia fazer de seu cavalo o menos favorito na última das três corridas, conhecida como o "Teste do campeão"; e ele era por sinal o único campeão ali já que Country House, o ganhador do Kentucky Derby, não estava presente novamente como não esteve no Preakness devido à um vírus. Mas, naturalmente como quase sempre acontece, Mark Casse tinha um outro cavalo na disputa, Sir Winston, que pagava 12-1 e não tinha a menor chance de vencer.
A corrida foi incrível como sempre é no Belmont Park. Mais de 50 mil pessoas viram a grande performance de Tacitus, o segundo colocado que talvez pudesse ter sido o grande herói do ano depois de ter sido terceiro no Derby, mas ele nem correu no Preakness. Quem havia corrida lá em Baltimore era War of Will, que vem fazendo uma excelente corrida, é o grande cavalo do treinador Casse, mas desta vez ele não é o cavalo certo. O puro sangue inglês perde força na prova longa e vai ficando para trás, bem no momento que surge Sir Winston. E por ironia do destino ele também é um cavalo do treinador Mark Casse, é o cavalo errado, mas na hora certa, na hora da arrancada final, do tiro fulminante, da vitória inacreditável do pouco acreditado que na verdade não tinha nada de errado.
A edição de número 144 do Preakness Stakes estava triste e melancólica. O treinador de Country House alegou que seu cavalou estava com um vírus e não poderia correr em Maryland. Foi a primeira vez desde 1996 que o vencedor do Kentucky Derby não correu o Preakness. Assim sendo, não haveria mais qualquer possibilidade de tríplice coroa neste ano de 2019, e foi com esse motivo que Maximum Security também desistiu. Ele havia sido o primeiro colocado no Kentucky, mas foi desclassificado por ter interferido na corrida de outros cavalos. Code of Honor e Tacitus acabaram por desistir também e, pela primeira vez desde 1951 (sem contar a desclassificação), os quatro primeiros colocados do Kentucky Ferby ficaram de fora do Preakness Stakes.
Improbable, no entanto, iria correr para a alegria e esperança de Bob Baffert, mas mesmo sendo o segundo favorito o seu triunfo acabou se tornando improvável. Ele se viu obrigado a ver Javier Castellano conduzindo com maestria o seu Warrior’s Charge, pelo menos até a última curva quando o puro sangue inglês pareceu perder o fôlego. Por dentro surgia War of Will, que largou da primeira posição e aproveitou as vantagens de se manter por dentro da pista. Charge não deu uma de Security e deixou o rival passar, caindo para quarto lugar. Com uma arrancada final impressionante, War of Will não deu chances para Everfast e Owendale, vencendo com o melhor tempo desde 2007.
Festa para Tyler Gaffalione e Mark Casse, mas não é deles que todos estão falando. Tudo porque enquanto War of Will vencia com louvor, um outro cavalo chamava mais a atenção porque corria sozinho, literalmente. Bodexpress não tinha muita chance de brigar pela vitória saindo da posição número 9, pior ainda quando teve dificuldades de largar assim que os portões foram abertos. O cavalo então saltou para cima e para frente, parecendo um bode, e bem rápido, no modo expresso. O jockey John Velazquez não resistiu e saiu voando pelos ares. Ele caiu sentado e por muita sorte não foi atingido pelo cavalo, que seguiu seu instinto de corredor e continuou galopando pela pista até completar a prova do Preakness Stakes.
John Velazquez é um jockey muito experiente e já ganhou duas vezes o Kentucky Derby e duas vezes o Belmont Stakes. Ao repórter preocupado ele disse que estava bem e que não precisava nem ir para o hospital. Enquanto isso Bodexpress ainda galopava pela areia do Pimlico Race Course, livre das chicotadas e feliz mesmo em último lugar e desclassificado. Quem garantia a taça e um lugar no catavento era War of Will, mas quem brilhava era Bodexpress. O nome do cavalo se tornou uma febre nas redes sociais, o assunto mais comentado no Twitter, o herói dos animais que provava poder fazer aquilo que lhe era atribuído mesmo que não houvessem uma pessoa para lhe obrigar. Ele deixou claro que na vida é possível brilhar, mesmo que seja em último lugar.
Mais de 150 mil pessoas estão onde muitos sonham estar um dia quem sabe. Em Churchill Downs, na velha Louisville do grandioso Kentucky. Desde 1875 escrevendo uma história que surpreende a cada ano. Talvez parecida com a história de 1968, mas de um jeito diferente e inédito desta vez. Na pista desleixada, que fora castigada o dia todo pela chuva, os cavalos seguem firmes em seus galopes poderosos, tudo que eles querem é correr pelas rosas em uma das maiores provas do turfe mundial. Cruzar o disco final na primeira posição é o sonho de muitos deles, mas pode acontecer de não ser o suficiente para alcançar a tão sonhada glória do título de campeão.
Bob Baffert continua lá, ele trabalhou com três cavalos neste ano sonhando em pelo menos igualar a marca de treinador com o maior número de triunfos no Kentucky Derby. Ele conseguiu um quarto e quinto lugar com Improbable e Game Winner, que mais tarde se tornariam terceiro e quarto. Mas as câmeras não estão mostrando Baffert desta vez, ele virou coadjuvante neste ano porque a história está do lado de Jason Servis e William Mott. treinadores que nunca venceram. Ao lado deles estão os jóckeys Luis Saez e Flavien Prat, respectivamente, com um batalhão de repórteres, cinegrafistas e fotógrafos em volta de cada um. Eles estão aguardando uma decisão importante, em uma espera que durou muito mais que a corrida toda.
O Kentucky Derby é uma corrida de cavalos conhecida como "A corrida das rosas" e também como "Os dois minutos mais empolgantes do esporte". Na pista, mesma na encharcada deste primeiro sábado de maior de 2019, os cavalos demoram mesmo cerca de dois minutos para completar a volta em Churchill Downs. O que eles não esperavam, no entanto, era ter que esperar outros 22 minutos para saber o resultado oficial da disputa. Em 1968 um cavalo foi desclassificado por doping, mas nunca um outro cavalo sofreu uma desclassificação como neste ano de 2019. Se tem VAR no futebol, então tem VAR nas corridas de cavalo também. E se nos jogos do Campeonato Brasileiro está demorando muito, aqui está demorando mais ainda, mas após ver e rever a decisão final foi tomada.
Prat e Mott festejam. Saez e Servis saem de cena tristes. O cavalo Maximum Security foi acusado de não manter a máxima segurança e obstruir os cavalos War of Will e Long Range Toddy, lhes custando uma posição melhor na corrida. Tais obstruções teriam ocorrido na última curva, justamente quando Country House aparecia pelo meio buscando a glória maior na famosa arrancada da reta final. Ele não conseguiu, mas o segundo lugar na pista foi suficiente para herdar o triunfo e garantir um descanso merecido na casa de campo. Eles comemoram atrasados, mas comemoram com vontade. Desde Big Brown em 2008 um cavalo saindo da posição 20 não vencia, e desde Donerail em 1913 um cavalo não pagava tanto aos apostadores.
Country House agora vai em busca da tríplice coroa, esperando cruzar as próximas linhas de chegada em primeiro ou quem sabe contando com mais revisões em vídeo, pois a tecnologia chegou em todos os esportes e não há mais espaço para as injustiças. Se tem VAR no futebol, pode acreditar que terá VAR nas corridas de cavalo também, custando lágrimas para um dos lados e garantindo sorrisos do outro.
Ainda era um pouco cedo, mas os torcedores já ocupavam boa parte das arquibancadas do City Field, em Nova York. O começo de temporada do New York Mets na MLB foi incrível, tanto quando o do Boston Red Sox, mas a equipe não conseguiu manter a mesma regularidade dos rivais do norte e acabou decaindo no decorrer da competição. O motivo para o público não desanimar é que desta vez a série de duelos é contra um velho conhecido da própria cidade de Nova York. Eles estão vindo do Bronx até o Queens, para mais uma Subway Series, para mais um confronto entre Mets e Yankees. Antes disso, no entanto, o público que chegou cedo volta as suas atenções para o telão, pois uma corrida de cavalos que acontece bem perto dali já começou, e quando terminar ficará marcada na história.
Os torcedores que aguardam o início do jogo acabam tendo uma reação singela. A maioria deles aplaude, ainda que sentados, mas ninguém vibra muito ou enlouquece de alegria. É compreensível, afinal eles são todos fãs de beisebol e não de turfe. O mesmo não se pode dizer daqueles que estão no hipódromo de Belmont Park, em Elmont, Nova York. Mais de 100 mil pessoas vão à loucura quando Justify cruza a linha de chegada em primeiro lugar, vencendo o Belmont Stakes praticamente de ponta a ponta. Festa para o jockey Mike Smith e alegria imensurável para o treinador Bob Baffert, sim, ele fez novamente. O cavalo Justify acabou de vencer a Tríplice Coroa, ele conseguiu fazer o difícil parecer fácil.
Em todas a história do turfe americano, e olha que só o Belmont Stakes chegou à sua edição número 150, apenas 12 cavalos haviam conseguido vencer a Tríplice Coroa. Pior do que isso é que até 2015, quando American Pharoah venceu, foram 37 anos de espera. Em toda essa história já houve vitórias próximas umas das outras, como ocorreu agora. Já houve até vencedores em anos consecutivos. Já houve até treinador ganhando duas vezes, como Bob Baffert fez novamente. Mas ninguém, exceto pelo fato de Baffert ser o treinador, esperava que isso fosse acontecer mais uma vez tão cedo, depois de uma espera e angústia que parecia não acabar nunca até a vitória de Pharoah em 2015.
Foi "fácil", mas não foi moleza. A vitória de Justify no Belmont Stakes nem de perto pode ser comparada à vitória de Secretariat em 1973. Por pouco Gronkowski não estragou a alegria de mais um tríplice coroado. Por pouco ele já não perdia no Preakness Stakes, e acabava de vez ali com qualquer chance, mas não foi o que aconteceu. O cavalo desacreditado que mal tinha um Pedigree que o creditasse como provável futuro campeão. O cavalo que tinha problemas que talvez o impedisse de ser um corredor. O cavalo que não correu com dois anos de idade e quebrou tabus no Kentucky Derby. O cavalo que não só fez o difícil parecer fácil, mas também tornou do impossível uma realidade.
O sábado amanheceu triste em Baltimore. A chuva castigava a cidade mais populosa de Maryland, no Estados Unidos. Assim sendo, as capas, os casacos e os gorros tiveram que sair do armário, pois os amantes do turfe tinham que sair de casa. O destino deles era o Pimlico Race Course, e ninguém sabe até quando poderão continuar indo até lá para assistir ao tão famoso e consagrado Preakness Stakes. A segunda corrida da Tríplice Coroa do turfe americano e uma das maiores corridas de cavalos do mundo chegou à sua edição de número 143, mas em breve, pela degradação do local onde é realizada a muitos e muitos anos, ela corre o risco de ter que fazer as malas e ir embora. Porém, enquanto essa tristeza para os moradores não acontece, é melhor encarar o dia triste de chuva para não perder a prova deste ano.
E lá se vão mais de 134 mil pessoas. O público foi um pouco menor do que o do ano passado, afinal foi um dos dias mais chuvosos em toda a história da competição. Sorte de quem encarou a água sem medo, pois teve o privilégio de ver mais um dia histórico para o turfe nos Estados Unidos e no mundo. Todos viram, ou pelo menos tentaram ver de alguma forma. Isso ocorreu porque se toda a chuva não fosse já uma desgraça suficiente, ainda teve a densa névoa que caiu sobre Pimlico bem na hora da corrida, bem na hora que a chuva resolveu dar uma trégua. O nevoeiro era tão denso que em uma determinada parte da reta final, onde os cavalos passam logo após a largada, era completamente impossível de ser ver qualquer coisa.
Após passarem pela neblina eles então surgiam como se estivessem saindo das nuvens rumo ao topo do mundo. E lá já estava ele, Justify, liderando desde o início e entrando firme na primeira curva. Mas ele não estava sozinho, Good Magic lhe acompanhava lado a lado querendo acabar com o seu sonho maior. Após a vitória no Kentucky Derby, tudo que Justify queria era vencer o Preakness para manter vivo o seu desejo de faturar a Tríplice Coroa. Era natural que ele fosse apontado como sendo o grande favorito para essa corrida, mesmo sem ter vencido nenhuma corrida com dois anos de idade, mas principalmente por ter quebrado a "Maldição de Apollo" e ser mais um vencedor em Kentucky após nunca ter vencido aos dois anos. O objetivo estava traçado, e Justify precisava justificar o favoritismo.
Em primeiro também na segunda curva, na terceira e na última também. A magia de Good Magic não é tão forte e ele mal consegue colocar a cabeça na frente do rival algumas vezes na reta oposta. E então, todos juntos e aglomerados, eles entram dentro da nuvem mais uma vez. Os cavalos desapareceram em meio ao nevoeiro e ninguém sabe mais quem é o ponteiro. Até que surgem mais uma vez para delírio dos fãs e apostadores que já não aguentavam mais sofrer na chuva do dia inteiro. E quem está em primeiro ainda é ele, Justify, com Bravazo e Tenfold ameaçando muito depois que deixaram Good Magic para trás. Até que ele finalmente justifica o favoritismo no sufoco e com apenas uma cabeça de vantagem. A vitória de Justify deu à Bob Baffert seu sétimo triunfo no Preakness Stakes, igualando a marca R. Wyndham Walden como o treinador que mais venceu. Foi a quinta vez que Baffert venceu o Preakness depois de vencer em Kentucky. O objetivo agora é vencer o Belmot Stakes em Nova York, para alcançar a Tríplice Coroa, para Justify ser o décimo terceiro cavalo à chegar ao topo do mundo, com ou sem chuva, justificando ainda mais o seu grande favoritismo que agora é maior ainda.